As vezes do vôo
Era um boing daqueles bem grandes que se chutam para cruzar o atlântico numa formalidade que não comporta tantos pensamentos perdidos nos assentos de um avião. Aeromoças passavam oferecendo chá ou café, me lembro de um senhor confuso com o monitor do assento, não sabia como usar o controle remoto. Pessoas aparentemente animadas para ver a Europa, para assistirem a manhã nebulosa e fria da Lisboeta.
Lembro que tocava Kings of Convenience no meu mp3 e que o sorriso aflito estava constantemente presente no meu rosto piedoso, procurei vasculhar qualquer indício que não me fizesse sentir tão só naquela primeira experiência intensa. Completamente só, deixando família, amigos e aconchegos pra trás, era eu e a minha companhia otimista.
É estranho pensar na solidão e nas hipóteses dos seus vazios criados, estamos sempre solitários, sempre em busca de nós mesmos em experiências intimistas e obscuras, fazemos disso o nosso fetiche para viver seguindo em frente, tudo conflui para nós mesmos e, no final das contas, é com isso que podemos contar.
No ar, na madrugada, se abraçando e repetindo pensamentos que figuravam aventura e saudosismo. Lembro que fui surpreendido por uma recordação do livro “Lavoura Arcaica” do Raduam Nassar, que não foi a primeira obra literária à lidar com a metafísica do “pra onde estamos indo nesta vida” mas que foi a primeira que me assustara com a resposta tão incisiva e cruel, “estamos indo sempre pra casa”. Raduam é um gênio que tece incríveis tratados sobre a vida e os valores em singelas frases poéticas e era assim que eu me sentia, solto e sem paciência para textos. Frases e versos bastavam-me para manter a piedade.
O rumo estava traçado no plano de vôo que ilustrava a tela de LCD na minha frente, recordo-me que a todo momento eu a ligava para ver a distância percorrida e quantas horas faltavam para enxergar a manhã rasgada da Europa. A ansiedade se misturava com sensações de ter deixado muitas coisas pra trás, tive um desejo bizarro de ter a minha bagagem por perto como se ela fosse me dar mais habitat do que eu possuía naquele momento longe da porteira. Talvez isso nem fosse tão bizarro assim.
Naquele boing, não tive os primeiros questionamentos sobre a solidão ou sobre a bagagem, eu já havia percebido isso antes, porém não com tantos símbolos para fundamentarem a possibilidade de julgá-los da minha maneira.
Quando a Europa chegou, as brumas me receberam no rompimento da noite para o dia, revelando que os questionamentos estavam caminhando para um desfecho, ou talvez para um novo início.
texto e foto: Guto Franco
Sem pestanejar, vou continuar querendo agarrar a bagagem, pensando que os pães de queijo da minha avó sempre estarão me esperando em casa.
Era um boing daqueles bem grandes que se chutam para cruzar o atlântico numa formalidade que não comporta tantos pensamentos perdidos nos assentos de um avião. Aeromoças passavam oferecendo chá ou café, me lembro de um senhor confuso com o monitor do assento, não sabia como usar o controle remoto. Pessoas aparentemente animadas para ver a Europa, para assistirem a manhã nebulosa e fria da Lisboeta.
Lembro que tocava Kings of Convenience no meu mp3 e que o sorriso aflito estava constantemente presente no meu rosto piedoso, procurei vasculhar qualquer indício que não me fizesse sentir tão só naquela primeira experiência intensa. Completamente só, deixando família, amigos e aconchegos pra trás, era eu e a minha companhia otimista.
É estranho pensar na solidão e nas hipóteses dos seus vazios criados, estamos sempre solitários, sempre em busca de nós mesmos em experiências intimistas e obscuras, fazemos disso o nosso fetiche para viver seguindo em frente, tudo conflui para nós mesmos e, no final das contas, é com isso que podemos contar.
No ar, na madrugada, se abraçando e repetindo pensamentos que figuravam aventura e saudosismo. Lembro que fui surpreendido por uma recordação do livro “Lavoura Arcaica” do Raduam Nassar, que não foi a primeira obra literária à lidar com a metafísica do “pra onde estamos indo nesta vida” mas que foi a primeira que me assustara com a resposta tão incisiva e cruel, “estamos indo sempre pra casa”. Raduam é um gênio que tece incríveis tratados sobre a vida e os valores em singelas frases poéticas e era assim que eu me sentia, solto e sem paciência para textos. Frases e versos bastavam-me para manter a piedade.
O rumo estava traçado no plano de vôo que ilustrava a tela de LCD na minha frente, recordo-me que a todo momento eu a ligava para ver a distância percorrida e quantas horas faltavam para enxergar a manhã rasgada da Europa. A ansiedade se misturava com sensações de ter deixado muitas coisas pra trás, tive um desejo bizarro de ter a minha bagagem por perto como se ela fosse me dar mais habitat do que eu possuía naquele momento longe da porteira. Talvez isso nem fosse tão bizarro assim.
Naquele boing, não tive os primeiros questionamentos sobre a solidão ou sobre a bagagem, eu já havia percebido isso antes, porém não com tantos símbolos para fundamentarem a possibilidade de julgá-los da minha maneira.
Quando a Europa chegou, as brumas me receberam no rompimento da noite para o dia, revelando que os questionamentos estavam caminhando para um desfecho, ou talvez para um novo início.
texto e foto: Guto Franco
Sem pestanejar, vou continuar querendo agarrar a bagagem, pensando que os pães de queijo da minha avó sempre estarão me esperando em casa.


2 comentários:
intimista.
vontade que deu de chorar..
ainda mais a com o coldplay de como trilha..
=~
é, no final estamos todos sozinhos com nós mesmos. talvez assim seja melhor.
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