Registro
Se eu fosse ela, eu talvez me justificaria mais pelos atos de pessoas que planejam menos. Eu me esbaldaria por cantos sobrepostos com gramas e flores macias, sem ter como limite a branco impecável das meias. Eu me nutriria das noites limpas pelas quais ela se envolve em olhares despertos, inebriados. . . Se eu tivesse os seus cabelos, eu colaboraria mais com a liberdade e os prenderia, só para sentir a iminência do desfacelamento dos fios ao vento. Eu me mudaria para São Paulo. Eu me mancharia com a paixão das geléias, me surpreenderia com a negligência das estrelas cadentes. Eu cantaria num karaokê de boteco e fuzilaria-me com poucas e sonolentas palmas. Talvez, eu me enquadraria, me humilharia até perceber que a vida não passa de uma louca sujeição de corpos e que o tempo é a válvula por onde somos constantemente medidos, em gotas.
Se eu fosse ela, por um minuto, por um instante, por um pingar, eu certamente a prenderia em mim e a apertaria feito registro, para que nenhuma gota fosse despediçada mais.

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